Brasil: Governo e Empresas atrasados em cibersegurança

O Brasil ainda não compreendeu o peso real da cibersegurança no século XXI. Enquanto países desenvolvidos tratam o tema como prioridade de Estado, o país segue sem regulação consistente, sem fiscalização efetiva e sem mecanismos claros de responsabilização. O resultado é um cenário de fragilidade estrutural, em que tanto o governo quanto as empresas permanecem expostos a ataques que poderiam ser evitados. A ausência de uma política nacional de segurança digital reflete não apenas um atraso técnico, mas uma falta de entendimento sobre o que significa proteger informações em uma sociedade totalmente conectada.

Nos Estados Unidos, há décadas, a segurança cibernética é conduzida com base em normas rigorosas e supervisão contínua. O NIST estabelece padrões técnicos obrigatórios para setores estratégicos, a CISA monitora incidentes em todo o território e o Federal Information Security Modernization Act exige que órgãos públicos passem por auditorias constantes. Além disso, empresas privadas seguem frameworks como o Cybersecurity Framework e leis como o CCPA, que impõem responsabilidades objetivas sobre o tratamento e a proteção de dados. Na Europa, o cenário é igualmente robusto, com o GDPR e a diretiva NIS2 criando um ecossistema em que privacidade e cibersegurança são pilares inseparáveis da economia digital.

No Brasil, as poucas iniciativas existentes ainda se limitam ao papel. Falta integração entre agências, falta clareza sobre obrigações e falta cultura de auditoria contínua. A grande maioria das empresas acredita estar segura porque possui um firewall ativo ou um antivírus atualizado. Essa mentalidade defensiva, isolada e estática, é o que impede o país de evoluir. Enquanto a ameaça se torna mais sofisticada, as estratégias continuam presas à lógica de proteção de perímetro, sem considerar que o verdadeiro risco está na superfície de ataque distribuída e invisível.

O maior problema, porém, está na base cultural. A maioria das pessoas não entende o que é cibersegurança. E o mais grave é que não estuda. O conhecimento técnico e estratégico sobre o tema ainda é restrito a poucos profissionais, enquanto o restante da sociedade mantém uma visão ultrapassada, como se cibersegurança fosse apenas uma extensão das redes de computadores, algo que se resolvia nos anos 2000 com antivírus e bloqueios de porta. Esse pensamento limitado cria um abismo entre o discurso e a prática. O Brasil ainda fala sobre cibersegurança como se vivesse em 1990, sem perceber que hoje ela envolve comportamento, engenharia social, ofensiva, nuvem, inteligência artificial e defesa preditiva. Não há evolução possível sem compreensão e o país segue vulnerável porque as pessoas não sabem o que estão tentando proteger.

Em países que lideram o tema, a cibersegurança ofensiva já se tornou parte central da estratégia nacional. Governos e empresas simulam invasões, executam operações de Red Team e adotam abordagens ofensivas para antecipar falhas antes que sejam exploradas. Israel utiliza esse modelo como extensão direta da sua defesa nacional. Reino Unido e Alemanha mantêm centros de resposta que operam com mentalidade de ataque controlado para testar continuamente suas defesas.

O Brasil, em contrapartida, continua a depender da sorte e da reação. Casos recentes de exploração de falhas que se aproveitaram do sistema do PIX mostram como o país ainda opera com visão fragmentada e sem capacidade de resposta imediata. Em um ambiente em que a tecnologia avança mais rápido que a legislação, a ausência de uma política nacional de segurança cibernética não é apenas um problema técnico, é um risco estratégico. Enquanto o mundo se prepara para antecipar ataques, o Brasil ainda tenta entender o que aconteceu depois que eles já ocorreram.

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